LION – UMA JORNADA PARA CASA | A Índia além dos satélites do Google Earth
- Nayara Reynaud
- 17 de fev. de 2017
- 4 min de leitura
Atualizado: 26 de abr. de 2020

Um dos candidatos ao Oscar de Melhor Filme, mas que tem mais chances de levar algum prêmio em outras de suas seis indicações, Lion – Uma Jornada Para Casa (2016), de Garth Davis é aquele tipo de filme que faz valer a ideia de que a realidade é muito mais fantástica e extraordinária que a ficção. Baseado no caso real de Saroo Brierley, relatado em sua autobiografia Uma Longa Jornada Para Casa (A Long Way Home), um indiano criado na Austrália que, durante a faculdade, começa a questionar as suas origens e a buscar sua família biológica da qual se perdeu aos 5 anos de idade, tentando descobrir qual era o povoado onde vivia através de pesquisas nas informações e imagens do Google Earth.
O pequeno Saroo, interpretado quando criança pelo impecável novato Sunny Pawar, era agarrado com o irmão mais velho, Guddu (Abhishek Bharate), a quem seguia de um lado para o outro, sempre tentando imitá-lo nos serviços que o garoto arrumava para ajudar em casa, onde viviam com a mãe (Priyanka Bose) e mais uma irmã (Khushi Solanki). Mas em uma noite, ao o acompanhar em um de seus “bicos”, o irmão some e não volta, deixando o menino sozinho na estação ferroviária da região, fora do horário de funcionamento. Ele sai em busca de Guddu, indo parar em um trem estacionado, onde cochila e acorda de manhã, com o veículo a todo o vapor nos trilhos, indo parar em Calcutá, a 1.600 km de distância.
Na região em que se fala bengali, Saroo pouco consegue se comunicar com o seu hindu e vivencia os perigos nas ruas, o assédio de quem parece oferecer ajuda e a rotina degradante no orfanato. O roteiro de Luke Davies, também indicado ao Oscar, frisa esses aspectos e a burocracia de um sistema falho que em nada o ajudou a voltar para sua família – estima-se que 80 mil crianças se perdem por ano na Índia –, só o fez ir para a Austrália, onde foi adotado por um carinhoso casal, John e Sue Brierley (David Wenham e Nicole Kidman, bem diferente com o cabelo anos 80).
Na pele de Saroo aos 20 e tantos anos, Dev Patel está no seu papel mais maduro até então e longe da figura do jovem sempre sorridente. Se às vezes a trama se prende demais em como a busca pela sua identidade afeta a vida dele, que prefere se isolar dos estudos, trabalho, família e da namorada, Lucy (Rooney Mara), o ator, que foi lembrado pela Academia, imprime essa angustia do personagem que, ao mesmo tempo, não deseja magoar Sue, a mãe que cuidou dele por tantos anos e que dá a Nicole Kidman, também indicada, a chance de fazer algo diferente.
No entanto, um dos aspectos mais favoráveis de Lion é a escolha por fugir da visão de Hollywood sobre a Índia, sempre colorida e com a presença marcante da luz solar na tela ocidental. A direção do australiano Davis e a fotografia sóbria de Greig Fraser, premiado pela associação da categoria (American Society os Cinematographers) no ASC Awards e nomeado pela Academia, se aproximam mais do próprio cinema indiano, não da mais famosa e animada Bollywood, mas dos filmes que rodam festivais e revelam um olhar realista para o país em suas mazelas por trás das cores, religiosidade e alegria.
E sendo o primeiro longa de Garth, que também foi premiado como diretor estreante pelo DGA (Directors Guild Awards) – cujo trabalho mais importante, entre comerciais, um curta e um documentário, tinha sido alguns episódios que codirigiu da série Top of the Lake (2013) – é notável sua eficiência em fazer o espectador sentir o desespero do garoto perdido, seja sozinho no trem ou na claustrofóbica cena dele na multidão, indo contra o “rodo cotidiano” na estação, colocando a câmera em função do olhar infantil. Algo que só se sustenta por causa do ator mirim revelação, Sunny Pawar. Em seu début, o garoto segura a primeira metade do filme sozinho, transmitindo uma emoção genuína de criança que vai fazer o público querer adotá-lo também.
Neste sentido, a obra consegue dosar o sentimentalismo que é indissociável à história de um menino perdido que, quando adulto, foi atrás de suas origens, sem pesar a mão até na trilha sonora de Dustin O'Halloran e Hauschka, que também figura nas indicações do Oscar – e a canção-tema só podia ser da australiana onipresente Sia, que traz elementos indianos ao seu estilo em Never Give Up. Ao saber conduzir a sua carga emocional de maneira legítima, Lion faz aqueles espectadores que costumam chorar no cinema se entregarem a um rio de lágrimas, mais de felicidade do que de tristeza, e os mais durões derrubarem um suor do olho sem culpa.
Lion – Uma Jornada Para Casa (Lion, 2016)
Duração: 118 min | Classificação: 12 anos
Direção: Garth Davis
Roteiro: Luke Davies, baseado no livro “Uma Longa Jornada Para Casa” (A Long Way Home) de Saroo Brierley
Elenco: Sunny Pawar, Dev Patel, Nicole Kidman, Rooney Mara, David Wenham, Abhishek Bharate e Priyanka Bose (veja + no IMDb)
Distribuição: Diamond Films